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Sacro

Choro ao anjo que agora escuto Por ser agraciado por voz sacra.  Por merecer ainda diminuto  Ouvir o couro de vozes e harpas.  Ainda em vida e júbilo  O anjo cantou para mim  Na fé que cresce enfim  Um Eu, em meu sepulcro.

A perder-me

Eu vejo o princípio das coisas  Me perco delas antes do fim  Esqueço-as, como se concebem, Desfaço de sua finitude  Para entristecer-me com sua frágil vida  Durável no tempo de uma memória  Ou no clamor de um sorriso.  Se vale ainda o canto, não sei,  O riso veio, A farsa o espreita  Há um sentimento contido  O princípio da tristeza: No egoísmo de imortalizar  — por necessidade —  Um verso inteiro sobre amor.

Colinas

A tarde pinga vermelho  E o orvalho se esvai  Toco teu seio Meus dedos avançam  E a gota cai.  Abro caminho por seus quadris  Invado tua alma por sua flor  Ferindo-a com ritmada calma  Em um corte de espada  Sou eu que morro  Em teu amor.

A Folha

E do orvalho a gota esvai Cai em contenda. Vejo a gota, não há outra Força que lhe contenta. Assim segue a natureza: Avassaladora e bela; Seguindo teu curso natural  Como é genial, como se interpela.

Blues

E na roleta da vida  Eu que apostei tudo, Sem ter nada,  Percebi que o prêmio  Nem me interessava.

Poema

O poema é o que ocorre depois do amor,  Ou aquilo que não se diz o que se sente. Ele é o desejo que não se mostra, Uma aposta incerta e pessoal; Um dizer confessável à quem tem ouvidos — lidos! Por juízes de nenhuma moral.  O poema nasce na raiz de uma revolução, Na flor da guerra e nos corações; Em palavras de ordem e regresso;  No pedido de rendição. O poema é um pedido de volta  Àquela saudade que se agita no peito  Feita tão somente de imagens  Além da dor, da dúvida ou do desespero. O poema nasce quando se morre, Ele acontece quando nada mais pode. Metamorfoseai-vos sentimentos abundantes, Encham-se de cor e tomem forma  Tinjam o papel de novas memórias  A crescer no tempo  Para além das gerações vindouras. Não havendo outra forma de exagerar  O que se quer falar e pensar da anatomia  Da curiosidade da vida  E a tudo a farta. Enquanto se vive aqui, O poema acaba.

Ao cão na estrada

Ao nobre perverso  Que aqui jaz; Valia mais que um verso  E nada mais.