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Mostrando postagens de outubro, 2026

Sacro

Choro ao anjo que agora escuto Por ser agraciado por voz sacra.  Por merecer ainda diminuto  Ouvir o couro de vozes e harpas.  Ainda em vida e júbilo  O anjo cantou para mim  Na fé que cresce enfim  Um Eu, em meu sepulcro.

A perder-me

Eu vejo o princípio das coisas  Me perco delas antes do fim  Esqueço-as, como se concebem, Desfaço de sua finitude  Para entristecer-me com sua frágil vida  Durável no tempo de uma memória  Ou no clamor de um sorriso.  Se vale ainda o canto, não sei,  O riso veio, A farsa o espreita  Há um sentimento contido  O princípio da tristeza: No egoísmo de imortalizar  — por necessidade —  Um verso inteiro sobre amor.

Colinas

A tarde pinga vermelho  E o orvalho se esvai  Toco teu seio Meus dedos avançam  E a gota cai.  Abro caminho por seus quadris  Invado tua alma por sua flor  Ferindo-a com ritmada calma  Em um corte de espada  Sou eu que morro  Em teu amor.

A Folha

E do orvalho a gota esvai Cai em contenda. Vejo a gota, não há outra Força que lhe contenta. Assim segue a natureza: Avassaladora e bela; Seguindo teu curso natural  Como é genial, como se interpela.

Blues

E na roleta da vida  Eu que apostei tudo, Sem ter nada,  Percebi que o prêmio  Nem me interessava.

Poema

O poema é o que ocorre depois do amor,  Ou aquilo que não se diz o que se sente. Ele é o desejo que não se mostra, Uma aposta incerta e pessoal; Um dizer confessável à quem tem ouvidos — lidos! Por juízes de nenhuma moral.  O poema nasce na raiz de uma revolução, Na flor da guerra e nos corações; Em palavras de ordem e regresso;  No pedido de rendição. O poema é um pedido de volta  Àquela saudade que se agita no peito  Feita tão somente de imagens  Além da dor, da dúvida ou do desespero. O poema nasce quando se morre, Ele acontece quando nada mais pode. Metamorfoseai-vos sentimentos abundantes, Encham-se de cor e tomem forma  Tinjam o papel de novas memórias  A crescer no tempo  Para além das gerações vindouras. Não havendo outra forma de exagerar  O que se quer falar e pensar da anatomia  Da curiosidade da vida  E a tudo a farta. Enquanto se vive aqui, O poema acaba.

Ao cão na estrada

Ao nobre perverso  Que aqui jaz; Valia mais que um verso  E nada mais.

À deriva

Ilhado em meu desespero particular  Vasculho em detritos sentimentais  Algo que possa me trazer alento  Ou demonstre além do que vejo,  Que alguma diferença faça.  Sou hoje de silêncio e nada.  Guiado pelas estrelas de outros tempos Caído em mórbido pensamento  Perdido em esperanças de coisas que nem nasceram ainda.  Coisas que não criaram vida. Volto meu olhar turvo ao espelho do mar  Não vejo nada que se vale invejar  Além do que poderia ter tido,  Quem mais poderia ter sido  E que agora estaria em meu lugar. Ah, não! Não me leve agora.  Não me leve embora, oh; Breve música de ninar.  Desperto salvo por um deus, Uma arte criada em particular  E me dói a cabeça ao pensar  Que está para raiar um novo dia.  Quisera estar em outro lugar?  Quereria.   Creria ter sido salvo por um anjo  Transcrito em poesia  Mas tudo que vejo é um vasto oceano  Em movimentos constantes  Com ond...

Pássaros

Não podia fazer do amor algo real,  Eu acreditaria nele, Dado aos folhetos que se leem nas praças Das imagens didáticas de vis amantes  Convidando casais para festins sazonais  Acabei de me flagrar sozinho  Em meio aos duplos Entristecendo com a imagem em aquarela  Da realidade em mim exposta. Voltei a caneta como revolta e sangrei  Do azul da tinta e o toque da esfera  Revoltei-me ao contentar-me com as ínfimas  Disforias de uma confissão pessoal, Novamente me flagrei pensando  Quem seria o homem por trás do poeta?  E se saberiam dizer a mim,  Que este homem teria um poeta? Ainda que na infância  Fazia diários em segredo com seu desejo  Folhas tímidas que se rasgavam  E hoje implora tanto, almeja tanto  Que o leiam. Saudades, minha velha amiga;  Tenho tido saudade para com as coisas  Está, enraivecida — contemplativa; Nobre e lúcida; Voraz e cotidiana. Tendo notícias suas  A olhar pela vitrine de ...

Digressão

Ódio  Amor  Raiva  Verso Suplício  Coesão: Há diferenças discrepantes  Nos lados opostos De um mesmo coração.

Liese

Grave meu nome no vitral  E   Na     Pedra Para que o tempo    Jamais      Me leve       De teu umbral. e em fonte entregue minha nascente Em praça pública  Teu coração  Para banhar o jovem, rir o infante; Ser fluente para tua gente.  Me forme belo Tuas Palavras  Quente e áspera trova  Para transpor minhas vivências  Como cotidianas coisas novas.  No mais  Peço calma pra alma  Flerte aos olhos  Paixão ao tocar  Pois em ti,  Pequena Liese,  O belo em jardim  Florescerá  E de virtude erguerá  Morada  Para que Paraíso  Eu a chame.  Para teu nome                  Descobrir     Para teu nome           Navegar.

O relógio

Mundo imutável; Triste mundo parado                              Cotidiano        Monótono.                    Exato... Horas tedioso... noutras...  – Tão errado! Como é chato  O mundo  Sem mistérios, Sem horas  E sem  Passado.

Devoto

Em meu universo  Feito devoção Penso se me nota  Ante lhe confesso  És minha paixão.

O seu amor

Na sede de teu amor, me afoguei  Triste fim de tarde de minha vaidade  E como consolas trágico sentimento?  Dor latente aqui dentro  Outrora morre por vontade  Mas perdura e insiste  Persiste, consiste em demagogia. Fez de tédio as minhas noites  E de buscas infinitas  Os meus dias.

Minha Celsa

O que rege minha vontade  É de súbito, minha razão,  Ao olhar de bem verdade  Há de não ter confusão  Por saber que ali jaz, é regente O que se faz no olhar e tão somente  Até sonhar com vossa imagem  Desejar teu toque amorfo  Em mais bela imagem  Assim pela vida sofro: Ansiando que me venha  Sem imaginação que nos detenha  Preso para além do beijo  Qual atiça meu desejo.

Palavra

Qual palavra é está escondida? Ressentida ou resguarda; Traria consigo alguma vida  Ou seria de morte trágica?  Portaria o peso de tudo  Ou se esvaziaria no nada?  Seria indigna e maldita, Ou seria inteira sagrada? Não, não haveria de haver  Boca mundana que a dissesse Ou ouvidos que a ouvissem   Ou textos que a transcrevem. Sequer, talvez, foi inventada,  Ou de tão ignorada  Perdeu-se em seu tempo  Transpassando seu momento  E para sempre, enterrada. Desiludido, o Poeta cava, Procura e anseia tal palavra  Sem sucesso e em obsessão, Pois poderia tal palavra  Trazer, enfim, toda a graça  E a alegria viesse  Sem “mas”, “porém” ou objeção.  Só o que teríamos Só o que haveríamos É de ouvi-la  E assim traria ao mundo: Compreensão.

(Uni)Verso

Tudo ainda é nada Daquilo que sabemos Esse fragmento em totalidade  É o mundo em que vivemos.