Pássaros
Não podia fazer do amor algo real,
Eu acreditaria nele,
Dado aos folhetos que se leem nas praças
Das imagens didáticas de vis amantes
Convidando casais para festins sazonais
Acabei de me flagrar sozinho
Em meio aos duplos
Entristecendo com a imagem em aquarela
Da realidade em mim exposta.
Voltei a caneta como revolta e sangrei
Do azul da tinta e o toque da esfera
Revoltei-me ao contentar-me com as ínfimas
Disforias de uma confissão pessoal,
Novamente me flagrei pensando
Quem seria o homem por trás do poeta?
E se saberiam dizer a mim,
Que este homem teria um poeta?
Ainda que na infância
Fazia diários em segredo com seu desejo
Folhas tímidas que se rasgavam
E hoje implora tanto, almeja tanto
Que o leiam.
Saudades, minha velha amiga;
Tenho tido saudade para com as coisas
Está, enraivecida — contemplativa;
Nobre e lúcida;
Voraz e cotidiana.
Tendo notícias suas
A olhar pela vitrine de sua vida
E ver que “esgotou-se”,
Sem precisão de nova vinda.
Voou um pássaro na minha frente
Ganhando o céu em liberdade
Pousando a frente de uma árvore
Olhando acima dos seres em orgulho
Vi Deus na natureza viva
E sorri com vicissitude
Ao animal que não se importava com o nome que o descem
Apenas com a própria irracionalidade.
Tensionei por completo os ombros
Escrevi cartas amigas e as espalhei na cidade
Muito além do poeta e do amor;
Cabendo em toda a natureza,
Refiz meu dia em versos
E sentei sobre o campo
Vivenciando olhares difusos de quem me lia
Sem saber meu nome,
Minha vocação ou meu passado,
Só o que podiam atestar
Era o tudo
Que eu
Sentia.
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